Desolador. Triste. Chocante. Palavras que definem o cenário no Jardim Monte Verde, bairro na divisa do Recife com Jaboatão dos Guararapes onde mais de 20 pessoas morreram em deslizamentos de barreira após as fortes chuvas que atingiram a região metropolitana da capital pernambucana. Até a tarde desta segunda, eram 91 mortos, 26 desaparecidos e mais de 5.000 desabrigados.

O desastre em Jardim Monte Verde começou por volta das 6h30 do sábado (28), quando aconteceram os primeiros deslizamentos.
Adriana Lyra de Souza, 44, perdeu 11 familiares na tragédia. Os corpos de alguns deles já foram liberados, mas ela não pode ir aos sepultamentos porque tem que cuidar do filho com necessidades especiais.

“Um desespero grande. Onze pessoas da minha família! Até hoje não consegui dormir, sem ventilador, sem energia. Comer é assim, de doação”, disse. “Só minha prima abraçou os três filhos e morreu abraçada com eles. Minhas tias e minha cunhada morreram e ainda tem uma prima embaixo da terra.” Além da dor da perda dos parentes, Adriana terá que deixar sua casa de aluguel na rua Monte Sião porque há risco de novos desabamentos. “Minha ficha ainda não caiu. Não posso deixar meu filho só e não pude ir. E também para não ficar com aquela lembrança.

Desde os desabamentos, as buscas seguem sem parar na região, mesmo durante a noite. Forças do Exército e do Corpo de Bombeiros participam do resgate. Depois de perder a casa e seus documentos na tragédia, agora Lucineide Cavalcante de Almeida, 54, busca alimento nas calçadas da comunidade. “Só não perdi a vida. E minhas crianças não morreram porque não tinha ninguém dentro de casa no momento. Perdi celular, álbum de família, documentos…”. Ela morava com o marido, filhos e neta, além de uma sobrinha recém-nascida. O restante da família dela mora em Brasília. “Morreu muita gente conhecida minha, é de doer o coração. Para dormir, estou tomando remédio controlado, tenho problemas mentais e não tenho conseguido dormir”.

Maria Lúcia, 60, mora há quarenta anos em Jardim Monte Verde. Nesse período, ela jamais viu algo igual. “Antes chegou a ter, mas não desse jeito. Todo ano cai barreira, mas desse jeito, não.” Ela diz que quando chegou na comunidade, na década de 1980, ela não era tão ocupada como agora. O avanço do número de casas nas barreiras começou nos últimos vinte anos. “A prefeitura só coloca lona e plástico preto. Fora isso, nunca fizeram nada”.

Há dúvidas sobre a qual município cada casa pertence, inclusive. Em alguns locais, o endereço nas contas de energia é Recife, mas em contas de água, Jaboatão dos Guararapes. Morador do local, Alex Santos, 45, descreve a situação como um cenário de destruição. “Cenário terrível, de guerra. Muitas pessoas perdendo a vida. E no começo a comunidade buscando os corpos. Chegamos a resgatar alguns sobreviventes, mas que depois não resistiram.”

Ele também teve que deixar a casa onde morava devido ao risco de novos desabamentos. Junto com mais quatro familiares, foi para a casa da vizinha. “Em 25 anos que moro aqui, nada efetivo de prefeitura. Só dizem que está em projeto, em análise e nada feito. Se tivessem feito, não teria tido isso”. Ele é ajudante de pedreiro e está sem trabalhar diante das lembranças do desastre no bairro onde reside há mais de duas décadas. “Esquecer isso não dá. É trágico.”

Mulheres entrevistadas pela reportagem contaram que passaram as últimas noites chorando porque não tinham onde dormir com seus filhos após a tragédia. Na tarde desta segunda, muitas pessoas retiravam móveis das casas interditadas para levar para outros locais.
Agora, a comunidade está tentando se organizar para ajudar quem perdeu tudo.

A capela Santa Luzia é um dos principais pontos de coleta de donativos na rua Pico da Apeu. O feijão lidera a lista das necessidades, mas também há coleta de roupas, outros alimentos e itens de higiene pessoal. Fraldas para crianças também estão em falta.
As filas se movimentam a todo o tempo com pessoas pegando donativos ou colocando seus nomes na lista de espera.
Fonte: tv gazeta

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