“Tenho o sonho de transformar o Vergel do Lago em um dos lugares mais inovadores e empreendedores de Alagoas”. A afirmação é de Carlos Jorge, morador do bairro Vergel do Lago, em Maceió, que desde 2015 atua em projetos sociais, levando sonhos e realizações à comunidade que sofre com a ausência do estado e de políticas públicas. Com a criação do Projeto Manda Ver, hoje Carlos Jorge recebe o apoio mais importante da ONG de São Paulo “Gerando Falcões”, que levará cultura, educação, noções de empreendedorismo e valorização do espaço à comunidade de Vergel do Lago.

Filho de pais alcoólatras, Carlos Jorge, de 31 anos, encontrou inspiração para a realização do projeto após perceber a forma como Vergel do Lago é reconhecido na mídia: violência, falta de saneamento básico, moradias precárias. A partir da constatação, ele decidiu lutar para acabar com o estigma presente no bairro.

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Carlos Jorge é idealizador do projeto Manda Ver, no Vergel do Lago. Foto: Redes Sociais

Dentre as práticas levadas à comunidade está o balé para crianças, o teatro, esportes, cursos de capacitação, assistência social e médica, formação empreendedora, cinema e sorteios. Agora, as ações irão se estender devido a uma parceria firmada entre o projeto Manda Ver e o Gerando Falcões, que é uma franquia social de São Paulo que atua em periferias e favelas do Brasil. Com a parceria firmada, o Manda Ver inaugura neste sábado (2) a sua quadra poliesportiva. Mais de 200 crianças terão acesso a esportes como jiu jitsu, balé, futebol, além de teatro e coral. Estima-se que, desde que foi criado, o projeto Manda Ver já atendeu mais de 500 pessoas na comunidade.

“Não é fácil tirar o rótulo da violência”, afirma Carlos Jorge. “Mas começamos essa jornada com a missão de transformar o Vergel, emponderar nosso povo, dar referência social, autoestima, libertar as pessoas de sua limitação, de tudo que os prende”, acrescenta.

O Sururu, além de ser uma porta de entrada da gastronomia alagoana, é uma das principais fontes de renda da população do Vergel do Lago, que vive às margens da Lagoa Mundaú. E é esse cartão postal que Carlos Jorge utiliza para trazer o espírito empreendedor às marisqueiras locais. “O Manda Ver começou em 2015. Existiu na sua essência e materializou-se às margens da Lagoa Mundaú. Temos centenas de empreendedores às margens da Lagoa Mundaú. Cada barraca que existe lá, para mim é uma empresa”, expõe.

Ele cita exemplos de pessoas que nasceram e foram criadas no Vergel do Lago e hoje, com seus talentos, ganharam o mundo com carreiras sólidas. Dentre os personagens, ele fala de Wesley Barbosa, que saiu do Vergel e mora no Vale do Silício, no Estados Unidos; o jogador Firmino, “que jogou nos campinhos do Vergel e hoje é jogador da Seleção Brasileira”; um jovem de 17 anos, que já publicou dois livros e a mestre em economia pela Universidade Federal de Alagoas, Larissa Pinto, que ainda mora no Vergel e é voluntária do projeto Manda Ver.

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Larissa Pinto, economista e moradora do Vergel do Lago, em ação social. Foto: Cortesia ao OP9

Nascida e criada no Vergel do Lago, Larissa agora ajuda a comunidade

Larissa Pinto atua na elaboração de projetos que visem firmar parcerias para angariar recursos e manter o Manda Ver. Mas ela diz que “cada um faz um pouco de tudo”. Nascida e criada no Vergel do Lago, nem mesmo depois de uma carreira sólida ela saiu do bairro. Ainda vive nele. A sorte lhe bateu à porta depois que conseguiu uma bolsa de estudo em um colégio particular de Maceió, ainda no Ensino Médio. Após isso, outras portas foram se abrindo e todas as conquistas vieram a partir das bolsas de estudos. Ela conta que todas as suas conquistas só foram realizadas porque teve ajuda de muitas pessoas que acreditaram em seu potencial.

“Só consegui atingir essas metas porque tive uma família que sempre investiu na minha educação como bem maior. E aí, uma oportunidade foi abrindo portas para outras oportunidades. Além da minha família, contei com ajuda de muitas pessoas ao longo da vida. Durante a graduação e mestrado na UFAL também tive professores que acreditaram no meu potencial. Depois desse tempo todo morando aqui, eu percebi que essas conquistas só fazem sentido se eu conseguir levar mais gente comigo. Principalmente gente daqui do Vergel. Por isso entrei no Manda Ver”, conta Larissa.

Mutirão contra o bicho do pé

Carlos Jorge, junto com o projeto Manda Ver, foi o responsável por ajudar cerca de 200 pessoas que vivem na favela Sururu do Capote, no Vergel, após um surto de bicho do pé que estava, literalmente, comendo os pés das crianças, em 2017. Por trabalhar em um hospital, ele divulgou a situação aos amigos enfermeiros. Além disso, fez publicações nas redes sociais que repercutiram na imprensa. Um mutirão de mais de 200 voluntários, incluindo Carlos Jorge, foi até o local e dedicou dias a retirar os bichos dos pés das crianças.

Mas não foi só isso. Os profissionais perceberam, que aquelas pessoas precisavam de outras assistências e concederam exames e tratamentos para outras patologias. O problema ainda existe na comunidade, que sofre com a falta de saneamento básico.

“Hoje o trabalho está voltado mais para a prevenção. A raiz do problema é estrutural do bairro por falta de saneamento. Agora, precisamos desse trabalho estrutural para mudar de fato a realidade social de nosso povo e erradicar de vez aquela situação tão triste, que está voltando por questão estrutural mesmo”, afirma o idealizador.

O Vergel do Lago 

O bairro Vergel do Lago é o 7º mais populoso de Maceió, segundo censo do IBGE e fica localizado às margens da Lagoa Mundaú, na parte baixa da cidade. A população sobrevive de recursos advindos da venda do Sururu, da pesca artesanal e de programas sociais como o Bolsa Família. A renda das famílias que vivem do sururu, de acordo com a economista e voluntária Larissa Pinto, gira em torno de R$ 250 mensais. O bairro é característico de ocupações de favelas e cortiços, a exemplo da favela Sururu do Capote.

Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL), em 2016, o Vergel do Lago estava entre os quatro bairros mais violentos de Maceió. Se não bastasse isso, a região é afetada pela falta de saneamento básico, que leva à população doenças como chagas, esquistossomose, dengue e leptospirose.

Para quem quer ser voluntário do Projeto Manda Ver, entre na página da ONG e informe sobre o interesse em participar. O perfil será analisado e, caso o interessado se enquadre na proposta, a própria ONG entra em contato.

Com informações do: OP9

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